Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2007
Considerações sobre a lei da flatulência

Estou indignado.

No próximo dia 1 de Janeiro entrará em vigor a chamada “Lei da flatulência”. Uma lei absurda que me proíbe de soltar o meu gás intestinal em recintos públicos fechados, tais como restaurantes, bares, hospitais, ou mesmo transportes públicos.

Onde é que já se viu? Isto é um autêntico atentado às minhas liberdades! Uma pessoa não pode fazer uma coisa que lhe dá prazer, sem ser incomodado por fundamentalistas anti-pum? Faz-me mal? Mas sabe-me bem! Eu é que sei o que faço com o meu corpo!

Isto só mesmo num país terceiro-mundista como Portugal!!! (ou a Inglaterra, Espanha, França, Alemanha, ou os sub-desenvolvidos países nórdicos. Nota do editor)

 

Quer dizer, estou numa jantarada com os meus amigos, acabo de comer um repasto rico em gorduras e hidratos de carbono, e o que é que me sabe bem a seguir à refeição? Um café e uma bufa. E a partir de agora tenho que me levantar e ir lá fora? Não posso levantar a perna esquerda e aliviar-me como sempre fiz? É impressionante.

 

E não me venham com essa história de que incomoda. Eu sempre que me preparo para mandar um traque, tenho o cuidado de perguntar às pessoas que estão perto “não se importa, pois não?” e só depois então, dou liberdade à minha tripa. Na maior parte das vezes as pessoas não dizem nada, e toda a gente sabe que “quem cala consente”.

 

E depois vêm o outro das novelas dizer “já não mando uma jarda há 6 semanas, e nunca me senti tão bem”. E outros que juram a pés juntos, que desde que deixaram de efectuar descargas de metano, até a comida lhes sabe melhor. Que monte de tretas.

Se tocar uma castanhola é assim tão mau, porque é que não proibem logo o feijão? Porque o dinheirinho do imposto sobre as leguminosas faz-lhes falta, não é? Deixem-se de demagogias, pá.

 

Eu quero ver se os cafés me vão meter na rua quando eu tocar flauta gástrica. É o pões! Nunca mais lá entrava! E os bares e discotecas, se puserem em prática esta lei, vão de certeza à falência! Como é que o pessoal se vai divertir, sem “mandar um abrunho” que seja? Qualquer dia vamos a um bar para quê? Para beber uns copos e... conversar, queres ver? Pff...

 

PS: A interjeição “pff...”, utilizada no final do anterior parágrafo, será igualmente proibida a partir de 1 de Janeiro, por se aproximar foneticamente da sonoridade de um “crepe sem molho”.

 

(esta crónica foi escrita ao abrigo da directiva 2007/17/CE, de 20 de Outubro de 2007 que proíbe a utilização da palavra “peido” em textos metaforicos sobre o tabaco.)

 



publicado por Jorge Crespo às 00:36
editado por standupmagazine às 00:51
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.O Autor
Nascido na fornada de 1981, Jorge descende directamente dos Crespos, nobre tribo guerreira do norte da peninsula. Destinado a ser o primeiro português a jogar na NBA, confrontou-se no final da adolescência com uma falta de 20 centimetros em altura, mas que compensava claramente no perímetro abdominal. Desfeito o sonho da carreira desportiva, decide apostar em algo mais seguro e bem visto na sociedade, a Comédia! Enquanto acalenta a esperança de ser descoberto por um olheiro dos Chicago Bulls, que lhe proponha a naturalização como cidadão norte-americano para poder representar a selecção dos states, ocupa o seu tempo fazendo stand-up em bares, a troco de pouco mais que um leitinho com chocolate e uma moeda para meter na máquina do trivial. Consegue sobreviver de há 4 anos para cá com base nas proteinas do cacau, e na adrenalina da máquina de jogo, sofrendo, no entanto, horrores, devido à sua intolerância à lactose. Juntou-se por isso ao projecto "O SINDICATO", e escreve agora para este site, enquanto aguarda pelo ressurgimento no mercado do saudoso leite chocolatado MILO.
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